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Partido Novo, o intruso liberal na política brasileira – Época, 2015

18 de julho de 2018

Como a legenda furou o bloqueio das forças políticas tradicionais e se habilitou a participar do jogo eleitoral do país.

Na noite de 15 de setembro, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou o registro do Partido Novo, 14 meses depois da apresentação do pedido, houve um momento de júbilo no auditório da Corte, em Brasília. Eufóricos com a decisão, os cerca de 50 representantes do Novo que estavam no TSE saíram do plenário para comemorar. Houve lágrimas, expressões de autoexaltação e muita vibração, entre beijos, abraços e apertos de mão. Em outras cidades, como Rio de Janeiro e Porto Velho, simpatizantes e dirigentes do Novo, que marcaram encontros em bares da moda pelas redes sociais para acompanhar a votação do TSE pela TV Justiça, também ergueram brindes à decisão. “Foi um momento de muita alegria e emoção”, diz João Dionisio Amoêdo, presidente e idealizador do Novo. “O pessoal acompanhou a sessão do TSE como se fosse disputa de pênalti em final de campeonato.”

Diante do descrédito geral nos políticos e nos partidos tradicionais, atestado pelas pesquisas de opinião, o entusiasmo exibido pela turma do Novo é um fenômeno inusitado na história recente do país. Talvez só o PT, em seus primórdios, e a Rede Sustentabilidade, da ex-ministra Marina Silva, que obteve seu registro alguns dias depois do Novo, tenham gerado mobilização semelhante. “Muita gente achava que esse negócio era meio quixotesco”, afirma Amoêdo. “Uma vez, eu dei uma carona para uma conhecida e ela me disse: ‘João, você é tão inteligente. Por que foi se meter nesse negócio?’.” A resposta estava pronta: “A gente precisa se envolver na política para poder melhorar as coisas”.

Fundado em fevereiro de 2011 por um grupo de 181 pessoas sem nenhum contato anterior com o mundo político, como o próprio Amoêdo, o Novo está conquistando espaço em meio aos 35 partidos existentes no país. Primeiro partido de viés claramente liberal criado no Brasil desde a extinção da velha União Democrática Nacional (UDN), em 1965, o Novo tem atraído seguidores na maioria dos Estados, apesar da divulgação relativamente restrita do partido até agora. Com a direita saindo do armário, depois de quase três décadas de clausura, o desencanto com os políticos profissionais e a crise política e econômica, tudo parece conspirar para seu crescimento.

Embora Amoêdo fique incomodado quando dizem que o Novo é “de direita”, as principais bandeiras do partido – como a redução da presença do Estado na economia, a privatização, inclusive da Petrobras, o corte de impostos e maior eficiência na gestão do Estado – são as mesmas defendidas pelos grandes partidos de direita em todo o mundo. (Nas questões comportamentais, como o aborto e a liberação da maconha, o Novo prefere não se posicionar por ora, para evitar divisões internas – os conservadores defendem a abertura econômica, mas são mais rígidos nos costumes, enquanto os liberais mais puros apoiam maior liberdade nos dois campos.) “A gente não gosta de ser rotulado como partido de direita, porque é algo muito associado à ditadura, ao autoritarismo”, afirma Amoêdo. “Agora, se ser de direita é defender a privatização, nós somos de direita. Mas, se é pregar a intervenção militar, um Estado mais forte, não.”

Independentemente dos rótulos que lhe são atribuídos, o Novo alcançou até agora marcas respeitáveis para quem é um intruso no sistema político do país. No primeiro mês após o registro, conseguiu amealhar cerca de 5 mil filiados, considerados como “sócios” por Amoêdo, que aceitaram pagar R$ 315 de contribuição por ano (R$ 26,25 por mês) para aderir à legenda. Além disso, perto de 50 mil pessoas já preencheram o cadastro no site do partido desde a sua fundação. Nas redes sociais, o partido, que já nasceu na era digital, tem um desempenho invejável. No fim de outubro, sua página no Facebook tinha quase 950 mil seguidores, apenas 10 mil a menos que o PT, formado em 1982, e 349 mil a menos que o PSDB, que lidera o ranking, com 1,29 milhão. Um post feito pelo Novo para celebrar a obtenção do registro teve 23 mil “curtir”. “No Brasil, todo mundo se diz social-democrata. Para a democracia, é bom que exista um partido que se assuma claramente como liberal”, diz o deputado federal Miro Teixeira, que trocou o PDT pela Rede. “É um atraso enorme achar que só uma visão de mundo é correta e as outras não.”

Para alcançar esses resultados, o Novo montou uma operação bem estruturada, com um investimento relativamente baixo, para a complexidade da tarefa. Desde sua fundação, em 2011, até o fim de 2014, o partido consumiu um total de R$ 5 milhões, de acordo com Amoêdo, R$ 1,5 milhão a mais que a estimativa inicial. Quase tudo foi custeado por apenas meia dúzia de pessoas, inclusive ele próprio. Do investimento total, segundo o partido, 80% foram gastos no processo de coleta de fichas de apoiadores na rua. O restante foi usado para pagar as despesas com a parte legal e os investimentos em tecnologia, como o site do partido e a compra de ferramentas para facilitar sua gestão.

Nem tudo, porém, saiu como o previsto. Em meados de 2011, Amoêdo ficou sabendo que teria de prestar depoimento na Polícia Federal – alguns funcionários da empresa contratada para coletar as assinaturas dos apoiadores haviam falsificado as fichas enviadas aos cartórios eleitorais. Como ele assinava as petições de entrega das fichas, passou a ser investigado pela PF. Felizmente, para Amoêdo, um delegado da PF se deu conta de que, na verdade, ele fora vítima e não agente do delito. “Naquele momento deu uma certa dúvida sobre a continuação do projeto”, afirma. “A gente estava tentando fazer algo para melhorar o país, gastando dinheiro, dando nosso tempo, e ainda tinha de lidar com esse tipo de coisa. Foi duro.”

Com o tempo, o Novo conseguiu montar uma equipe de 400 voluntários, que deu uma contribuição decisiva para segurar os gastos. Além de ter ajudado na coleta de assinaturas, trabalham em eventos de divulgação do partido em auditórios, parques e ruas de grande circulação pelo país afora. Ao contrário do que acontece em atos organizados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT, os voluntários do Novo não recebem o “kit militante”, composto de um sanduíche de mortadela, uma camiseta e transporte gratuito. Têm de pagar do próprio bolso suas despesas. “A gente não ganha nada, mas sou apaixonada pelo Novo”, diz a pesquisadora de mercado Isabel Barcello, de 42 anos, formada em comunicação e estudante de Direito. Filiada ao partido, ela lidera um grupo de cinco pessoas que divulga o Novo em São Paulo nos fins de semana. “No Brasil, o governo tem muita interferência na sua vida.”

O Novo também terá de evitar que seu crescimento acabe comprometendo seus princípios e sua identidade ideológica, como aconteceu com o PT. Embora o partido ainda não saiba se e onde vai participar das eleições municipais de 2016, deverá realizar um processo de seleção regional, a ser validado pelo diretório nacional, para escolher dirigentes partidários e eventuais candidatos. Ao mesmo tempo, está formando uma parceria com a Fundação Friedrich Naumann para a Liberdade, da Alemanha, voltada para a educação política em favor da democracia e da economia de mercado, para treinar filiados e novas lideranças.

Fonte: Trechos da matéria: https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/11/partido-novo-o-intruso-liberal-na-politica-brasileira.html