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Líder do NOVO quer um Estado menor, que pare de atrapalhar – Estadão, 2015

18 de julho de 2018

Fundador de um partido sem políticos, João Dionísio Amoedo diz que o Brasil só crescerá quando o governo deixar as pessoas e empresas crescerem. E, sobre os desafios do futuro: o importante “não é dar certo, é fazer o certo”.

Um cidadão sabe muito melhor do que o Estado o que fazer com seu dinheiro. Um governo que quer fazer coisas demais não fará nenhuma direito. O que o Brasil precisa hoje é de um Estado menor, que pare de ficar protegendo as pessoas – ele tem é que cuidar de tarefas essenciais e deixar de atrapalhar. Foi com ideias assim que, nos últimos três anos, o administrador e engenheiro carioca João Dionísio Amoedo – hoje com 52 – juntou amigos, viajou, correu as redes, reuniu 502 mil assinaturas e conseguiu, em setembro, registrar no TSE o 33º partido do País – o Partido Novo (depois dele, mais dois já se registraram).

Engenheiro de formação, com carreira no mercado financeiro e passagens pelo Citibank e o BBA, Amoêdo criou, de propósito, um “estranho no ninho” – um partido feito inteiramente por gente de fora da política. Mas, sem a experiência dos políticos, não corre o risco de não dar certo? “O importante não é dar certo, é fazer a coisa certa”, pondera Amoedo. “Temos empresários, estudantes, profissionais liberais. No cadastro há 35 profissões. Político, nenhum”, ressalta nesta entrevista a Sonia Racy e Gabriel Manzano. A seguir, os principais trechos da conversa.

Como lhe veio essa ideia de criar mais um partido no País e por que acha que ele vai ser diferente?
A ideia apareceu entre 2008 e 2009. Em conversa com amigos, ficávamos agoniados de ver a quantidade de impostos que todos pagamos e o pouco que o governo nos dá em troca. Não é possível, dizíamos, que não se possa levar à vida pública as boas coisas da economia privada – boa gestão, meritocracia, transparência. E ao falar com alguns políticos percebemos que era preciso gente nova para fazer isso.

E imaginaram que a solução seria criar um novo partido.
Sim, e tudo dentro das instituições democráticas. Investigando as 27 ou 28 legendas que havia então, não vimos nenhuma que representasse de modo satisfatório a ideia de um Estado cuidando de áreas essenciais e que deixasse os cidadãos em paz. Em 2010, decidimos pôr esse negócio em pé.

“Decidimos”, quem?
Tivemos duas reuniões no Rio e uma em São Paulo e foram chegando estudantes, profissionais liberais. Nenhum político no grupo. A largada foi com 181 fundadores, de 35 profissões. A maioria era de São Paulo e do Rio, mas havia gente de 10 Estados. A lei eleitoral exige representantes de pelo menos nove.

E como conseguiram as mais de 490 mil assinaturas?
Foi bem mais difícil do que imaginávamos, demorou uns dois anos. Contratamos uma empresa que montou equipes de rua, essas equipes explicavam o partido e suas ideias básicas, pusemos ficha de inscrição no nosso site na internet. Chegamos a um milhão de eleitores, validamos pouco mais da metade. Vimos como foi difícil para a Marina (Silva, presidente da Rede Sustentabilidade) essa validação. Em julho entramos no TSE, que aprovou a sigla em setembro.

“ESTADO MENOR SIGNIFICA MENOS ESTRAGO E MENOR CORRUPÇÃO”

Já dispõe de um perfil socioeconômico desses filiados?
Na média, eles estão pelos 40 anos de idade. O perfil de muita gente é do tipo “jamais imaginei estar filiado a um partido político”. Temos hoje 17 núcleos, uns 50 mil cadastrados online, gente de muitas profissões, da Polícia Federal, do Ministério Público, contador, vigia noturno. O que não tem, mesmo, é político.

Sem políticos, não se corre o risco de não dar certo? E quais as grandes causas do NOVO?
Vamos começar com um esclarecimento: nosso propósito não é “dar certo”, é “fazer a coisa certa”. E sabemos que isso pode levar tempo. Quanto às causas, a principal é lutar para que se reduzam o papel e a presença do Estado na vida das pessoas e das empresas. O governo central não tem que ser um protetor da sociedade – o que é uma desculpa para ele controlar. Tem de cumprir tarefas essenciais e deixar os cidadãos viverem em paz.

Quais tarefas essenciais?
Saúde, educação, segurança, defesa, política externa. O que sabemos, todos, é que o Estado, como qualquer um de nós, não consegue fazer bem um montão de coisas ao mesmo tempo. Tem de fazer poucas, e bem. Além disso, num país como o nosso, um Estado menor significará menos estrago e menos corrupção.

Já há um plano de candidaturas para prefeito em 2016?
Temos um caminho ainda pela frente. Primeiro, estruturar o partido. Segundo, consolidar uma marca, como instituição. Isso é um ponto crucial. Terceiro, trazer pessoas novas para a política. Quarto, elegê-las. E quinto, promover um debate sério sobre mudanças estruturais. Quanto a 2016, a eleição já está muito perto. Gostaríamos de ter candidatos a vereador, a prefeito, é essencial para consolidar o nome. Mas não queremos cair nessa de eleger um “puxador de votos” para ganhar espaço. O compromisso é promover ideias. Difícil? Sim, mas é o que precisa ser feito. “Fazer o certo” é mais importante do que “dar certo”.

Qual a proposta do NOVO para o Brasil sair do atual buraco?
Primeiro, precisa de alguém no comando que tenha credibilidade, coisa que nos falta no momento. Segundo, ter ideias corretas – como essa de que o Estado tem de estar menos presente. Terceiro, o governo tem de fazer uma redução séria dos gastos. E quarto, fazer as reformas estruturais – trabalhista, previdenciária, tributária, privatizar empresas…

O eleitor tem ouvido esse tipo de análise há 20 anos…
Mas alguém já pegou um plano assim e levou adiante? O discurso é sempre de que “eu vou fazer isto e aquilo por você…” O discurso do Novo vai ser “eu prometo não atrapalhar”. O cidadão às vezes não percebe que quando um político lhe “paga” as promessas – isso quando paga… –, está aplicando dinheiro que é dele, cidadão. Não é favor nenhum.

O NOVO deverá atrair um eleitorado identificado com o liberalismo, com as teses do Estado mínimo. O momento parece bom para defender essa ideia ao País?
Não gosto desse termo, não sei bem o que é o Estado mínimo. Mas a nossa aposta é que o Brasil só vai conseguir crescer se as pessoas tiverem liberdade para crescer, se o Estado estiver menos presente.

“UMA BOA CAUSA SE VENDE POR SI, NÃO PRECISA DE TANTO DINHEIRO”

O sr. já disse que o NOVO é contra a existência do Fundo Partidário. Do que então ele vai viver?
Temos um sistema de contribuição que recebe de cada filiado 26 reais por mês – um valor equivalente a meio salário mínimo por ano. Vamos ampliar nossa interação em redes sociais. Pra se ter uma ideia, o PN está hoje só atrás do PSDB e do PT nas mídias. O PSDB tem 1,2 milhão de seguidores, o PT 950 mil. E nós, 920 mil. A Rede da Marina tem uns 60 mil. Mas a Marina, pessoalmente, tem uns 2 milhões. A Dilma, 2,7 milhões. O Aécio, 4,5 milhões. Isso comprova o que dissemos antes: que a nossa política é feita de pessoas, não de ideias.

Mas um partido que sai do nada, que não quer puxadores de votos e terá horário mínimo na TV terá dificuldades para tornar os candidatos conhecidos.
Sim, é uma missão difícil, mas não impossível. Muita gente já perguntou pelo Facebook se vamos ter candidato em 2016. Respondemos que sim e eles dizem: “Ótimo, vou votar nele, nem preciso saber quem é”. Precisamos ter uma marca séria, conquistar essas pessoas. Sem essa de salvador da pátria. E também podemos aproveitar bem a tecnologia, as mídias sociais, fazer contato sem mobilização física. Veja os bancos: eles não saem mais abrindo agências por toda parte, fazem quase tudo online, para clientes do planeta inteiro.

Como veem a questão do financiamento de campanha?
Achamos que se você tem uma boa ideia e um bom produto, não precisa gastar um montão de dinheiro para “vendê-los” ao eleitor. Em 2008, o Fernando Gabeira, numa campanha modesta, quase boca a boca, perdeu por apenas 50 mil votos do Eduardo Paes na disputa pela Prefeitura do Rio. Daí a importância de se criar uma marca para o PN. Uma boa causa se vende por si. Fica bem mais barato.

Muitos partidos nascem cheios de boas intenções e quando crescem fica difícil controlar os egos, os conflitos. O NOVO vai ser diferente?
Há formas de minimizar isso. Nos estatutos do Novo criamos um item pelo qual quem é parte da diretoria não pode ter cargo eletivo. Ou seja, quem pensa o partido não atua na política diária. Nos partidos que estão aí, são justamente os cardeais que controlam os grandes cargos e os usam para obter o que desejam. Quem preside o PSDB? Um senador. Quem preside o PT? Um deputado. No Novo, quem negocia política diária não apitará nos debates sobre estratégias da legenda.

Mas política é conversa, é assumir compromissos. É o que deixa marcas e define a imagem da sigla, não?
Como disse antes, o que queremos é “fazer o certo”. Não pretendemos entrar nessa de negociar cargos nem de controlar o que for. Queremos as ideias orientando as ações. Nos fixamos em poucas coisas, centrais. Como essa de que já despejamos muito dinheiro nas mãos do Estado, e não adianta criar uma ONG pra ajudar isto ou aquilo. Tem uma lógica, e pode dar certo. Em vez de ONG, vamos direto ao Estado, fazer o que não foi feito.

Outros partidos, na história, têm sido fiéis a uma causa – PC do B, PSOL, PSTU, PV… – e são pequenos, sem grande peso na política. O NOVO vai mudar essa escrita?
Acho que sim. O que a experiência nos diz é que partidos que flexibilizam muito sua atuação não criam identidade com o eleitor. O Novo chega de fora, vai lutar para ser protagonista, sem entrar em coligações, tendo candidatos próprios.

Que acha do Bolsa Família?
Não sou contra, ele tem coisas importantes. O custo é baixo em relação a outros programas, como o seguro-desemprego. Depois, o governo repassa o dinheiro e o cidadão pode fazer as compras na rede privada. Escolhe por sua conta o que gastar e onde. O que falhou é que deveria levar as pessoas a uma situação melhor e isso não aconteceu. Virou puro assistencialismo, um remédio. E o governo ainda bate bumbo e diz que, em vez de mil pessoas tomando o remédio, agora tem duas mil! Não faz sentido.

Fonte: https://cultura.estadao.com.br/blogs/direto-da-fonte/partido-novo-quer-um-estado-menor-que-pare-de-atrapalhar-as-pessoas/